As ressonâncias do preconceito
Cérebros (homos)sexuaisVale lembrar aqui as palavras da historiadora da psicanálise Elisabeth Roudinesco, que, a propósito da vaga biologizante atual, nomeou-a de "pretensão obscurantista", denunciando esta por confundir "o pensamento com um neurônio" e "o desejo com uma secreção química".
A idéia do cérebro homossexual converge ainda fortemente para o senso comum social que acredita que os gays são homens efeminados (mulheres em corpos de homens; homens com cabeça e anseios de mulheres), assim como acredita que as lésbicas são mulheres masculinizadas (homens em corpos de mulheres; mulheres com cabeça e anseios de homens). A idéia reforça a crença que gays e lésbicas seriam mesmo os "invertidos" de outrora: inversão que, agora, estaria comprovada: está inscrita nos seus cérebros. Uma tal especulação é certamente útil ao alívio de conservadores e preconceituosos que não admitem que cada um possa decidir o que fazer com seu próprio corpo e por seu desejo. Determinados pela natureza de seus cérebros, provado que "são" homossexuais não por escolha, gays e lésbicas passariam a ser perdoados de seus vícios, pecados, anomalias etc. Até que cheguem aqueles que irão sugerir cirurgias reparadoras da "inversão cerebral". Engano pensar que a conclusão que o preconceito formulará será outra.
O argumento da natureza despolitiza a reflexão sobre gênero e sexualidade e atrela direitos a serem conquistados pela mudança de mentalidade da sociedade ao obscurantismo do apelo ao biológico. O que a mentalidade conservadora e o preconceito não suportam é simplesmente a idéia da liberdade.
É fato que muitos LGBTTs flertam com as teses de um substancialismo (ou essencialismo) naturalista, sem que tenham consciência da despolitização que a posição representa. Muitos também não suportam (emocional e politicamente) a idéia da escolha. Ao que parece, enxergam nas suas próprias vivências da homossexualidade algo que somente se torna suportável se forem representadas como destino inevitável ou dádiva da natureza. A homossexualidade seria para alguns destes experienciada como peso, fardo, culpa, que somente se tornaria possível aceitar se encarada como uma realidade com a qual já se nasce e que se passa a ser portador, como se porta a cor dos olhos (não seria esta a fonte do discurso da "inclusão social" do segmento LGBTT em políticas públicas? Inclusão social como se fala disso para os chamados "portadores de necessidades especiais"?). Deixando de entender que o caráter transgressivo ou subversivo das homossexualidades está no fato mesmo destas escolhas divergirem da heteronormatividade, escolhas que se tornam alternativas à (ideologia da) heterossexualidade obrigatória, no direito de cada um em se inventar a si mesmo no corpo e na alma, muitos gays, lésbicas, travestis e transexuais renderam-se ao argumento da natureza. Definitivamente, não nascemos gays, lésbicas, travestis, heterossexuais ou o que quer que seja, somos socialmente fabricados, assim como nos inventamos, quanto ao gênero e quanto à sexualidade. Inventamo-nos! (Foto)


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