Potiguar Queer

A fala dos que estão fora, para além da ordem. Resgata os ambíguos e os sexualmente excluídos.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

As ressonâncias do preconceito

Cérebros (homos)sexuais:
as ressonâncias do preconceito
Alípio de Sousa Filho
- professor da UFRN. Editor da revista Bagoas.
TVs, jornais, internet divulgaram: na Suécia, cientistas encontraram as "provas mais sólidas até hoje de que a sexualidade não é uma opção, mas uma característica biológica". Nos cérebros de homens e mulheres homossexuais, "descobriram" características próprias: o cérebro dos gays é igual ao das mulheres heterossexuais e o cérebro das lésbicas é igual ao dos homens heterossexuais. Estudos com ressonância magnética seriam a "prova". A idéia de um cérebro gay ou lésbico não é nova. Simon Le Vay, especialista norte-americano em neuroanatomia e autor do livro The Sexual Brain, publicado em 1991, já propunha a tese.
A idéia do cérebro homossexual é vista por muitos gays e lésbicas como um argumento a favor de suas lutas de afirmação identitária e por direitos. Mas é preciso dizer que estes se enganam inteiramente. O argumento segundo o qual a descoberta de "aspectos biológicos" da homossexualidade favorece a gays e lésbicas contra o preconceito é simplesmente equivocado e reacionário. O que a idéia do cérebro gay (ou lésbico) visa barrar é a afirmação das diversas possibilidades do sexual (incluindo a heterossexualidade) como posições libidinais das escolhas do objeto de desejo do sujeito humano, ao mesmo título iguais entre si, nenhuma delas sendo natural, inata, biologicamente configurada.
Nas nossas sociedades, o que é insuportável para muitos é a concepção que a sexualidade é uma escolha, uma tomada de decisão, embora nem inteiramente consciente nem totalmente determinada. Nos sentidos com os quais estudos diversos (em antropologia, sociologia, história, psicanálise) têm afirmado, o desejo sexual é construído em percursos pessoais nos quais se misturam elementos variados, seguindo direcionamentos inconscientes e outros conscientes, e sempre cultural e historicamente situados, mas sempre uma escolha na economia dos prazeres. E por inconsciente não se devendo entender nada em sentido negativo. Da mesma forma, não se pode esquecer o que Michel Foucault apontou: a existência da sexualidade como uma essência dada, que os indivíduos seriam seus portadores, é invenção histórica que se inicia a partir do fim do século XVI em sociedades européias. Hoje, acreditando-se em superação do preconceito, fala-se em "orientação sexual", como se a locução por si mesma fosse uma solução teórica e politicamente adequada. Não é, haja vista sua substancialização (psicologizante ou biologizante) crescente. Poderíamos simplesmente nomear a homossexualidade como uma variante da cultura sexual humana, como uma possibilidade do sexual, mas prefere-se achar que "orientação sexual" é conceito mais adequado (no fundo, por crença substancialista), esquecendo-se, mais uma vez, que se trata aí de captura do pensamento pelo discurso social-histórico. (Foto)

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