Potiguar Queer

A fala dos que estão fora, para além da ordem. Resgata os ambíguos e os sexualmente excluídos.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

As ressonâncias do preconceito

Cérebros (homos)sexuais
Por efeito da longa história de colonização pelo preconceito anti-homossexual, que tornou a heterossexualidade uma evidência em si mesmo de sua natureza natural, pensar que existem causas específicas que produziriam a homossexualidade ou aspectos biológicos que a atestariam como inscrita na biologia dos indivíduos, mas ainda assim estigmatizada como um desvio, tornou-se uma idéia que freqüenta a cabeça de muitos. Mesmo às vezes no pensamento daqueles que se crêem sem preconceitos. No imaginário de nossas sociedades, quando não manifesto, permanece latente a crença que homens e mulheres homossexuais são pessoas que, no seu desenvolvimento sexual, carregam algo que merece ser explicado.
Vista como realidade para cuja existência contribui uma causa específica, a homossexualidade é objeto das mais variadas especulações...
A procura por explicar os fenômenos humanos a partir de bases biológicas não é um fato de hoje na história da ciência. Todavia, a onda atual do determinismo biológico tem permitido retornar, com muita força, explicações biologizantes de fatos sociais e fenômenos culturais, com ampla aceitação e difusão pelas mídias. Temos sido bombardeados pela descrição de fenômenos tomados como desencadeados por "ações do cérebro", à simples vista fenômenos que são reflexos ou reações fisiológicas provocadas por situações emocionais, subjetivas, sociais. Hoje, o uso das imagens feitas com ressonância magnética talvez seja o melhor exemplo dessa inversão. Não faz muito tempo, revista nacional de ampla circulação trouxe matéria sobre as "bases cerebrais" das atitudes de compradores compulsivos: são o nucleus accumbens, o córtex insular e o córtex pré-frontal médio que nos fazem comprar o carro da propaganda na TV, a camisa que está na vitrine ou o perfume que adoramos! No discurso do determinismo biológico, não há sociedade, propaganda, mercado, subjetividades... existem apenas a química dos hormônios e cérebros em atuação.
Simon Le Vay, estudando cérebros de cadáveres, com tecidos naturalmente modificados pela morte, afirmou ter encontrado uma diferença estrutural de tamanho nos hipotálamos de gays e lésbicas: nos homossexuais, seria de menor tamanho. Outro exemplo da extrapolação abusiva do biologismo cientificista é Gunther Dörner, que, trabalhando na Universidade Humboldt, em Berlim, e estudando cérebros de ratos, concluiu que a identidade de gênero dos bichinhos podia ser modificada, quando se interferia em partes de seu cérebro. Gunther Dörner partiu daí para fazer afirmações sobre fatores biológicos da homossexualidade humana... Para o determinismo biológico, ratos, cadáveres e ressonâncias servem para explicar aspectos da subjetividade humana, do desejo, das sexualidades, das construções de gênero. (Foto)

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