Sexualidade e prazer na província II
Constatam-se, apenas, pequenos resumos ou historietas rasas, contadas à boca pequena, muitas vezes narrações feitas oralmente em encontros e reuniões de amigos e admiradores dos membros dessa fauna, sem registros escritos, a ficarem perdidos no tempo.
São, na maioria dos casos, registros verbais concernentes a pequenos relatos, à guisa de um comentário fugaz de fatos curiosos, pitorescos ou jocosos, em formas de pilhérias ou piadas, sem qualquer tino de celebração pela passagem, entre nós, de componentes desse segmento, desde sempre estigmatizados.
Para eles, são reservados julgamentos, considerações e opiniões no mais das vezes de corte deslustroso, como se fosse uma sina desses indivíduos serem classificados, nas crônicas oficiais e nas prosas oficiosas, no conceito, do filósofo Michel Foucault, de "homens infames".
Ninguém se arvora o direito de passar a limpo suas histórias, nem cultivar suas memórias, refletindo, com argúcia e oportunidade, acerca de sua participação na vida social e política da comunidade, suas influências e pressões sofridas dos costumes, levantando a evolução do seu cotidiano, com ausência quase absoluta de sua presença no seu tempo, seja em livros, jornais ou folhetins.
Com esta publicação, pretende-se oferecer a oportunidade de uma celebração exclusiva desse segmento, reunido in memoriam as bichas mitológicas da cidade, verdadeiras lendas do universo gay natalense, que marcaram presença nas mais diversas épocas, como Velocidade, Rosa Negra, Leo Dantas, Nazareno, Duruca, Ataíde (Agenor Teodoro), Brigitte (Manoel Martins Mendonça), Cu de Ouro, Júnior, Dedé, Nazareno, Víulle, Piaba, Olavo, Nascimento e Martins, entre outros.
Otávio Teixeira Moniz (na foto, de Antonius Manso), do alto de seus 80 anos, completados ainda neste ano de 2007, no mês de outubro, natural de Araruna, na Paraíba, e radicado em Natal desde os 19 anos, é uma dessas lendas vivas que remontam ao passado da cidade e suas reminiscências mais gratas e tensas, já que reúne, em grande parte de seu histórico de vida, o confronto entre a dor e o riso, o padecer e o gozo, a lascívia e a hostilidade, como pólos indissolúveis e imprescindíveis.


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