Potiguar Queer

A fala dos que estão fora, para além da ordem. Resgata os ambíguos e os sexualmente excluídos.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Sexualidade e prazer na província II

Paulo Augusto
Editor do Encartes
Jornalista Reg. Prof. 11.126 (DRT/SP)
Uma década antes das primeiras paradas de homossexuais, Natal era um deserto gay. Todo mundo estava no armário. Poucos – e logo transformados em figuras folclóricas, os heróicos – botavam as unhas manicuradas pra fora. E quem botava, com certeza beliscava, era beslicado, manipulado, gozado. E comido. Antropofagicamente, de maneira metafórica e literal.
Da numerosa, rica e exuberante fauna gay da Cidade do Natal, cujos nomes deveriam encher verdadeiros compêndios, dando conta de suas vicissitudes na vida da comunidade, pouco existe como narrativa e como memória, por absoluta falta de interesse de seus representantes, abrigados confortável e lucrativamente nas mais diversas ONGs, siglas que, se reclamam dos assassinatos sucessivos de seus representados, pouco caso fazem da recuperação dessas biografias.
São inúmeros os gays contemporâneos, habitantes singulares da terra de Poty, de quem a sociedade desconhece o registro de sua passagem, no âmbito de seu estatuto de pessoa, sem que lhe investiguem a vida pessoal com relação à sua origem, à sua situação social, seu status profissional, familiar, sua extração como indivíduo e sua categoria como cidadão. Perde-se, para sempre, a seqüência de fatos que formataram sua existência, a fim de que as gerações posteriores possam conhecer e estudar suas linhagens e seus pedigrees.
"O grande problema da homossexualidade na nossa sociedade patriarcal machista é a ausência da auto-imagem. Por isso brigamos pela visibilidade", reclama o escritor paulista João Silvério Trevisan, para quem "o homossexual passa a vida atrás dele mesmo".
Autor do livro "Devassos no paraíso", João Silvério Trevisan faz um histórico gay, abordando na obra assuntos como a colaboração da polícia com a psiquiatria, que estiveram mancomunadas na perseguição de homossexuais, no início do século XX, além de trazer passagens divertidas, como a do modernista Oswald de Andrade troçando com a homossexualidade de seu colega de letras Mário de Andrade, ao dizer que este "parecia com Oscar Wilde, por detrás".
Autor de nove livros – entre eles quatro romances –, Trevisan tem em "Devassos no paraíso – a homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade" (Record, 588 págs) seu cartão de visita. O livro foi lançado em 1986 sendo reeditado com 257 páginas a mais. A obra, que foi descrita pelo falecido escritor Caio Fernando Abreu como "inquietante, às vezes doloroso e sempre provocativo", se configura num ensaio histórico-antropológico com muitas informações escritas em linguagem não acadêmica, como fruto de oito anos de trabalho, divididos entre o primeiro e o segundo lançamento.
Caso se fosse computar, entre os mortos e sobreviventes dessa tribo urbana em Natal, tal qual uma casta, em suas ramificações e gêneros, reunindo os exemplares masculinos e suas congêneres do sexo feminino, sem sombra de dúvida se elaboraria uma obra de vulto. Seria a oportunidade de se reunir formidável volume de nomes expressivos, de pessoas de grande consideração no seu meio. Esta obra, que os expusesse de maneira ordenada, metódica, a obedecer um critério de apresentação, seja alfabético ou temático, resultaria num esplêndido relicário de alta significação e valor para a compreensão da história das famílias e dos indivíduos do Rio Grande do Norte. (Foto)

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